quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Feche os olhos querida,



- Feche os olhos querida
Foi a única palavra que me lembro ter ouvido.
Depois nada mais se encaixava. Eram gritos, tiros, barulhos. Que pelos outros, significavam o apenas. Apenas gritos, apenas tiros. Como se fosse algo comum.
Tentei viajar, voltar a um passado que mais parecia um sonho.
Acordar, ir ao colégio, estar em casa ajudando nas tarefas, brincar com alguns colegas e as vezes sozinha. Tudo havia se perdido.
Imaginava a família na sala reunida novamente esperando a visita da minha avó. Eu era a mais ansiosa, pois amava aquelas histórias que me desencadeava uma vontade de viver cada uma delas.
Abri os olhos, por um momento. Tinha me assustado com o respingo de lama que alguém havia pisado. Não fazia diferença, porque já estava suja. Voltei aquilo. Cena de alguma história de horror que minha avó havia contado.
- Mandei fechar os olhos!
Obedeci meu pai.
Flores, sol, água, brincadeiras. A chegada do verão. Eu só queria aproveitar. Deitar na sombra, lanchar e brincar. O barulho mais forte e assustador que ouvia era da minha mãe gritando e chamando eu e as outras crianças pro jantar.
Tiros.
Continuei com meus olhos fechados.
Papai?
E nada.
Não iria desobedecê-lo e abrir meus olhos.
Papai?
Soltei meus joelhos e encostei minha cabeça no muro.
Mais tiros e restos de areia caindo em mim, provavelmente da parede.
Papai?
Era como se eu soubesse e não quisesse aceitar. Olhos fechados, e agora cheios d'água.

Não perguntei mais. Toquei a mão no chão e senti um líquido quente e viçoso. Estiquei meu braço e senti sua mão. Fria. Soltei. Agarrei-me de novo, com medo, com raiva daqueles que nos atacaram.
Desisti de chamar pelo meu pai, pois ele não estava mais por lá.

Só tinha a escuridão cheia de imaginação dos meus olhos fechados. E lá encontrei a alma de meu pai. Estava feliz, e ao mesmo tempo preocupado. Sem sangue, bem vestido e nutrido.
Papai?
Feche os olhos querida.




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